12.6.91

Escreve contos

Escreve contos sem fazer literatura, nos quais o conhecimento é dito e não sabido. Histórias sem fundo moral, gramática pedante devido ao intelectualismo com que pensa trabalhar, mas não alcança.

Escreve contos que não se aproximam de histórias verídicas nem profundas. Inventa datas que nunca viveu, pois tanto faz quando não se reconhece a data em que se vive.

Escreve contos sem fim porque tudo o que sabe foi decorado, tudo o que diz foi programado. E o fim só cabe a quem vivencia.

Escreve contos como se fosse um dos melhores do mundo. Os melhores do mundo foram pequenos um dia. Acredita.

Escreve contos e neles força-se a colocar fantasia, amor e ilusão para que assim possa ver sentimentos escritos, já que senti-los não sente. Mostra paixões e prazeres para si mesmo, tornando-se consciente de que suspira, de outro modo, só respira.

Escreve contos nos quais ensina o que leu para apreender o que se passou. Ensina a conhecer, mas não conhece nada. Exprime idéias geniais que são por poucos admiradas, porém vive apenas nas mesquinharias sociais.

Escreve contos para o mundo inteiro e quem os lê é sua pasta, guardada numa gaveta. Exibe neles como se faz rimas, mas rimas neles não há. Nem prosa, muito menos poesia. Não compreende, não consegue sorvê-las.

Ecreve contos nos quais explora o bom humor e a positividade porque a angústia e o desânimo lhe são inerentes. Não conhece nada bem, não conhece nada, aliás, conhece o nada, que conhece muito bem. E ainda assim...

Escreve contos.

Nenhum comentário: