6.6.11

Crônica de uma situação

Ontem uma amiga recente (e depois de muito vinho desde de tarde) veio dizer para mim que iria embora da festa e faria roleta russa por todos os faróis até em casa. 

- Como? 
E me ofereci para dirigir o carro. 
- Hoje não. Ela respondeu.
- Então vou com você.
- Hoje não. Não quero ferir ninguém.
- Se eu dirigir isso pode não acontecer. 
- Mas hoje eu preciso fazer isso. Sou suicida, mais cedo ou mais tarde...
Fiquei perplexa com aquela denúncia, com aquele anúncio:
- Essa é a única forma que você vê?
Ela pensou e disse:
- Se eu encontrar um amor e viver com ele, morro velhinha.
- Se você morrer não vai encontrar.
- Se eu morrer não vou mais me importar com isso.

Que papo surreal, que abandono... E o que eu tinha a ver com isso? Aquilo tudo era bastante infantil. Mas talvez ela tivesse justamente que me implicar. Jogos perversos, energias obscuras, simples desilusão? Seja o que for não é bom. 

De repente, ela sumiu da festa. Fiquei apreensiva. Óbvio. Fiquei profundamente triste. Como no episódio da queda de bici em que machuquei o joelho, eu me senti muito impontente. 

...Porque pude me ver nela, sentir o vazio dela. Eu me vi como ela e então senti medo. Ah, a compaixão é capaz de nos tornar incrivelmente vulneráveis. Para completar a miríade de sensações, senti raiva também, muita raiva, vontade de socá-la, porque, em contrapartida, ela foi incapaz de se ver em mim ou em qualquer situação menos infeliz. 

Liguei. Liguei. Ela atendeu. Viva. Não estava no carro. Fiquei tranquila. Mas a tristeza e a raiva permaneceram ainda por um tempo.  

Hoje ela me mandou sms se desculpando, se justificando. Silêncio. A amizade entre nós começa ou acaba agora, porque se não há valor nas relações, realmente não há nada.