23.11.08

O VAZIO E O NADA

Durante algumas semanas observei meus pensamentos a correr entre o significado do vazio e do nada.

Obviamente tenho idéias sobre o vazio e o nada, aliás, todo mundo tem, quem nunca sentiu um vazio? Sim, mas a questão é justamente investigar que vazio é esse e qual vazio corresponde, ou não, ao nada. Mas por quanto tempo podem o vazio e o nada me preencher? Tenho tempo para o nada? E indagando sobre tais indagações decidi pedir ajuda às cartas. Fui levada à teoria da ciência com seu “vazio funcional” e a questão "o vazio existe?".

Existe o vazio, oras, foi cientificamente comprovado e reabilitado desde a revolução científica dos séculos XVI e XVII, mas que vazio é esse? É outra coisa que o nada?

Vi-me então obrigada a abortar a questão sob a luz cientifica, e também religiosa e transcedental, pois o vazio preenche espaços aparentemente infinitos dessas cartilhas e justifica-os muito bem demais para o meu mais íntimo gosto.

Eliminei alguns ângulos da questão, certo, esvaziar, esse era o caminho. Enfim, pedi ajuda aos universitários e caí de cara na filosofia, ah... que ousadia! Segui discreta, busquei Demócrito, filósofo pré-socrático, há algum tempo encasquetei com essa figura, mas logo fui levada a Aristóteles, que me levou a Nietzsche, que me levou a Hegel, que escreveram sobre Leucipo, que tendo sido mestre de Demócrito há cerca de 2.500 anos, não se sabe bem quem pensou o quê, por isso ambos estão historicamente como que colados. E ali, da distância entre mim e eles, entre o meu tempo e o deles, obtive a resposta que significava minhas noções de forma bem mais satisfatória e apurada. O vazio é o nada posto como ente, grosso modo, bem grosso modo, quer dizer que se alguém quer dar uma “cara” para o nada, chama a isso de vazio, porque o vazio presume o cheio, o vazio é então mensurável, qualificável. O vazio é. O nada... o nada não pode ser, ele é no máximo uma não-coisa muito grande...

E de vazio nas mãos observei o desenrolar daquele conceito: o vazio é o princípio do movimento, da continuidade, os átomos movem-se no vazio, logo é necessária a existência do vazio para que o movimento seja possível. Genial, era isso que eu queria dizer desde o principio!

Então, determinados vazio e nada, direcionei os pensamentos para o que me havia levado a pensar no vazio, a visita à Bienal, como alguns devem saber, e que me fez buscar seu texto curatorial. Tal texto, escrito por Marcio Doctor, um de seus curadores, afirmava que o vazio não pode ser entendido como o nada. Agora, nós temos ao menos uma ideia do porquê.

Passei por toda essa historinha para dizer que essa é uma das bienais mais terríveis e b
rilhantes que já vi no pavilhão do Ibirapuera. Uma exposição que exibe incompetência, desinteresse e discrepância cultural como fruto natural da nossa terra e fruto tipo exportação. Uma vergonha escancarada. Por outro lado, a decisão de deixar o segundo andar do pavilhão vazio foi feita com uma coragem sem paralelo no planeta. Impressionante. Não se pode deixar de notar que foi realizada por uma das maiores e mais tradicionais instituições de arte do Brasil, da América Latina. Esses curadores são os heróis momentâneos da verdade num país onde tudo se disfarça, tudo se encobre, tudo é aparentemente maravilhoso. Sim, do nada, eles nos proporcionaram o vazio! E o vazio agora nos pertence.

Sem meias-palavras, a 28ª Bienal ainda nos oferece uma opção auto-ejetável de quebra, no canto. Um escorregador que seduz a optar por uma saída vertiginosa e sumária dali. U-hu! Eu me auto-ejetei, escorreguei. A realidade é que o vazio não quer ninguém ali, pois qualquer um serve de testemunha para sua profunda miséria e agonia. A instituição vocifera: remédio não há.

E digo que essa exposição não apresenta o novo, porque a idéia de novidade, de ruptura, está essencialmente ligada ao século XX. Quando era preciso negar todo o passado para conhecermos nossos limites, mas nos não precisamos mais negar o passado, pelo contrário, precisamos desesperadamente dele para reconhecer nosso possível. O vazio pode ser uma desculpa, mas não é uma mentira. Precisamos parar, refletir. Silêncio, nós precisamos desse medo.

Questões, questões, as questões que deste vazio brotam são inúmeras e talvez a mais interessante delas seja o fato de o vazio ter sido proposto por curadores e não por artistas, como se a arte neste momento necessitasse de quem a enxergue e não de quem a crie. Posso ouvi-la a declarar: meu presente será viável, a partir do momento em que o futuro de vocês deixar de ser inviável!

Este é um paralelo que a arte faz com o movimento global anticonsumista gerado pela escassez de recursos da terra, no qual o menos, o mesmo e o necessário se tornaram o que de mais sensato podemos querer, o vazio é o extremo do comedimento. Extremo no qual só a arte existe.

E de acordo com Demócrito, o vazio pressupõe o cheio, então este vazio é também um convite, uma abertura, uma concessão rara e inédita para que participemos de um repensar tão exclusivo da arte, não como artistas, mas como portadores de cédulas de identidade e de uma porção de vazios. O que cabe ali?

Quanto à 28ª Bienal, apesar de toda a critica, e como todo movimento genuíno de arte, ela resiste e permanece impopular e maldita.