"(...) Essa exposição não apresenta o novo, porque a idéia de novidade, de ruptura, está essencialmente ligada ao século XX. Quando era preciso negar todo o passado para conhecermos nossos limites, mas nos não precisamos mais negar o passado, pelo contrário, precisamos desesperadamente dele para reconhecer nosso possível. O vazio pode ser uma desculpa, mas não é uma mentira. Precisamos parar, refletir. Silêncio, nós precisamos desse medo." Trecho de O VAZIO E O NADA.
A Bienal de São Paulo de 2008 me fez divagar sobre o Vazio, cheguei a elaborar o texto supracitado, no qual esbocei uma noção que temos sobre a idéia ou conceito de Novo, enquanto objeto intrínseco à busca artística. A maioria de nós produtores de cultura, independentemente do nível dessa produção, assumimos sem pensar que o Novo é fundamental para ultrapassarmos as ideias que não mais nos comovem, que foram esmiuçadas, alargadas até desgastadas por suas aplicações nas artes plásticas, cênicas, musicais, literárias, etc., gerando movimentos artísticos com tempo ou fôlego de existência ou resistência cada vez mais rápidos e sobrepostos.
Arrisco dizer também que a ideia de topo, maior e melhor, sempre atrelada ao novo, também está perdendo seu significado - são ideias herdadas por mais de quatro séculos, do vício eurocentrista, da colonização de diversos povos, da posição sedutora do conquistador, quando a notícia do feito ou o desconhecido começaram a se alastrar através da implantação de novas mídias e processos como navegação e telégrafo; ainda quando o subjugo era percebido como destino, quando a crença sobrepujava a realidade.
A novidade era necessária no começo do século XX porque a partir do cosmopolitanismo emergente, da produção e da distribuição em larga escala, e em velocidades crescentes, da influência de diversos povos e suas artes, os movimentos adquiriam uma profusão de linguagens até então consagradas, também externas e distantes. Muito bem, com negros habilitados, máquinas automatizadas, mulheres emancipadas, tecnologias de comunicação e de rede de comunicação criadas, serviços institucionalizados e o conquistador caindo para um segundo plano com a emancipação gradual das colônias, os produtores de cultura se viram compelidos a pensar essas influências culminando numa expressão de mudança, era preciso romper com o estabelecido que vinha construindo glórias e guerras sem precedentes. Havendo naturalmente muito o que abortar é daí, dessa constatação, sempre um criticar, que a ideia de Novo emergiu potente, redentora e muito duradoura, permanecendo por mais de um século como o estopim de toda criação contemporânea, permeando os mais diversos movimentos artísticos. Ruptura é a palavra capital do Modernismo. Era então preciso criar a partir da negação, do inverso, do abandono de tudo que até ali fora criado.
Aportando no século XXI, essa emergência efervescente tornou-se tendência vigente. Então, a aceleração dos processos humanos e a profusão destes processos não é mais um surgimento e sim uma constante. Obviamente, se relevarmos quantitativa e não qualitativamente as descobertas e elaborações em qualquer área são infinitamente mais numerosas hoje do que há 100 anos, mas observá-las ou entendê-las como algo que se deve romper, inverter ou abandonar é colocar-se à deriva do mundo contemporâneo; se consideramos predominantes nos dias de hoje o conectar, o reverter e o assumir - do latim "tomar para si" - que são movimentos de integração e abrangência, não por escolha de um ou de muitos, e sim porque a conexão global, a reversão de fatores e a adoção de medidas, seres, causas etc., nos obriga a observar, sempre um criticar, e compele a expressar este abraçamento planetário. Se há novo possível, o novo agora surgirá da ligação, da interação com o outro, com o mundo, com o presente e, justamente, com o passado. É com ele e só a partir dele que podemos construir uma arte outra. Então a palavra Novo não morreu propriamente, morreu seu significado de coisa inesperada, como a novidade de uma máscara africana vista pela primeira vez ou uma música chinesa escutada pela primeira vez. Porém, hoje re-conhecemos de maneira obviamente superficial a cara do mundo, as coisas do mundo, os lugares do mundo, as gentes desse nosso mundo. Todos temos imagens para "planeta", "proveta", "vulcão" ou "esquimó", por exemplo, sem necessariamente termos visto qualquer um deles.
Apesar de nenhum de nós saber qual o resultado a se alcançar durante nossas buscas, sabemos hoje e de forma inevitável de onde podemos partir, reabilitando o antigo - o natural - revisitando e reelaborando expressões e processos arcaicos, antigos, presentes e de última geração para que conhecimentos sejam interligados e se produza uma arte contemporânea, que não pode mais ser excludente, maniqueista ou unidimensional.
Fato é que as relações sempre foram multidimensionais, multidirecionais, nós é que não as entendíamos como tais. Hoje, as importâncias estão se tornando cada vez mais circunstanciais e dependentes de seus contextos, e as elaborações artísticas acompanham - na melhor das hipóteses, lideram - essa tendência de pulverização de uma única ideia em diversas ideias interligadas - como um rapper pode rever Bach e com a produção dele gerar algo, não melhor, mas genuíno. A comparação torna-se complicada e entroncada, pois tudo há de se relevar no julgamento dessa criação, aspectos antropossociológicos, biológicos, etc., e, principalmente o ponto de vista do observador, como insiste Edgar Morin, mas ninguém consegue analisar um tudo infinito. Então não será a análise comparativa que assegurará um valor, e sim a circunstância, a configuração relacionista na qual surge a obra.
A Bienal de São Paulo de 2008 me fez divagar sobre o Vazio, cheguei a elaborar o texto supracitado, no qual esbocei uma noção que temos sobre a idéia ou conceito de Novo, enquanto objeto intrínseco à busca artística. A maioria de nós produtores de cultura, independentemente do nível dessa produção, assumimos sem pensar que o Novo é fundamental para ultrapassarmos as ideias que não mais nos comovem, que foram esmiuçadas, alargadas até desgastadas por suas aplicações nas artes plásticas, cênicas, musicais, literárias, etc., gerando movimentos artísticos com tempo ou fôlego de existência ou resistência cada vez mais rápidos e sobrepostos.
Arrisco dizer também que a ideia de topo, maior e melhor, sempre atrelada ao novo, também está perdendo seu significado - são ideias herdadas por mais de quatro séculos, do vício eurocentrista, da colonização de diversos povos, da posição sedutora do conquistador, quando a notícia do feito ou o desconhecido começaram a se alastrar através da implantação de novas mídias e processos como navegação e telégrafo; ainda quando o subjugo era percebido como destino, quando a crença sobrepujava a realidade.
A novidade era necessária no começo do século XX porque a partir do cosmopolitanismo emergente, da produção e da distribuição em larga escala, e em velocidades crescentes, da influência de diversos povos e suas artes, os movimentos adquiriam uma profusão de linguagens até então consagradas, também externas e distantes. Muito bem, com negros habilitados, máquinas automatizadas, mulheres emancipadas, tecnologias de comunicação e de rede de comunicação criadas, serviços institucionalizados e o conquistador caindo para um segundo plano com a emancipação gradual das colônias, os produtores de cultura se viram compelidos a pensar essas influências culminando numa expressão de mudança, era preciso romper com o estabelecido que vinha construindo glórias e guerras sem precedentes. Havendo naturalmente muito o que abortar é daí, dessa constatação, sempre um criticar, que a ideia de Novo emergiu potente, redentora e muito duradoura, permanecendo por mais de um século como o estopim de toda criação contemporânea, permeando os mais diversos movimentos artísticos. Ruptura é a palavra capital do Modernismo. Era então preciso criar a partir da negação, do inverso, do abandono de tudo que até ali fora criado.
Aportando no século XXI, essa emergência efervescente tornou-se tendência vigente. Então, a aceleração dos processos humanos e a profusão destes processos não é mais um surgimento e sim uma constante. Obviamente, se relevarmos quantitativa e não qualitativamente as descobertas e elaborações em qualquer área são infinitamente mais numerosas hoje do que há 100 anos, mas observá-las ou entendê-las como algo que se deve romper, inverter ou abandonar é colocar-se à deriva do mundo contemporâneo; se consideramos predominantes nos dias de hoje o conectar, o reverter e o assumir - do latim "tomar para si" - que são movimentos de integração e abrangência, não por escolha de um ou de muitos, e sim porque a conexão global, a reversão de fatores e a adoção de medidas, seres, causas etc., nos obriga a observar, sempre um criticar, e compele a expressar este abraçamento planetário. Se há novo possível, o novo agora surgirá da ligação, da interação com o outro, com o mundo, com o presente e, justamente, com o passado. É com ele e só a partir dele que podemos construir uma arte outra. Então a palavra Novo não morreu propriamente, morreu seu significado de coisa inesperada, como a novidade de uma máscara africana vista pela primeira vez ou uma música chinesa escutada pela primeira vez. Porém, hoje re-conhecemos de maneira obviamente superficial a cara do mundo, as coisas do mundo, os lugares do mundo, as gentes desse nosso mundo. Todos temos imagens para "planeta", "proveta", "vulcão" ou "esquimó", por exemplo, sem necessariamente termos visto qualquer um deles.
Apesar de nenhum de nós saber qual o resultado a se alcançar durante nossas buscas, sabemos hoje e de forma inevitável de onde podemos partir, reabilitando o antigo - o natural - revisitando e reelaborando expressões e processos arcaicos, antigos, presentes e de última geração para que conhecimentos sejam interligados e se produza uma arte contemporânea, que não pode mais ser excludente, maniqueista ou unidimensional.
Fato é que as relações sempre foram multidimensionais, multidirecionais, nós é que não as entendíamos como tais. Hoje, as importâncias estão se tornando cada vez mais circunstanciais e dependentes de seus contextos, e as elaborações artísticas acompanham - na melhor das hipóteses, lideram - essa tendência de pulverização de uma única ideia em diversas ideias interligadas - como um rapper pode rever Bach e com a produção dele gerar algo, não melhor, mas genuíno. A comparação torna-se complicada e entroncada, pois tudo há de se relevar no julgamento dessa criação, aspectos antropossociológicos, biológicos, etc., e, principalmente o ponto de vista do observador, como insiste Edgar Morin, mas ninguém consegue analisar um tudo infinito. Então não será a análise comparativa que assegurará um valor, e sim a circunstância, a configuração relacionista na qual surge a obra.
Um comentário:
Interessante colocação , um mix de idéias comtemporaneas.
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